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Terra vazia: o ativo mais antigo da humanidade.


Todo mundo já passou de carro por um lote vazio e pensou: "que meio de mato". Terra pelada, sem casa, sem nada, dinheiro parado, dizem os espertos. Só que essa "terra vazia" é, provavelmente, a coisa mais valiosa que a nossa espécie já inventou de perseguir. E olha que a gente inventou a roda, o pão de queijo e o Pix.


Vamos combinar uma coisa antes de começar: Terra vazia nunca foi inútil. Antes de ocupada só esteve esperando função.


A gente aprendeu a escrever para anotar quem era dono de terra


Descubra esse fato: os primeiros textos da humanidade não eram poemas de amor nem preces aos deuses, eram recibos. Contabilidade de grão, de gado e principalmente de terra.

Lá na Mesopotâmia, por volta de 3500 a 3100 a.C., os sumérios já rabiscavam em tábuas de argila quem tinha vendido qual pedaço de chão, com limites, preço em prata ou cevada e até testemunhas. Eram as primeiras escrituras do mundo, os proto-registros de imóveis. Antes de escrever "eu te amo", o ser humano escreveu "este campo é meu, e tem três testemunhas que confirmam".



Ou seja, a escrita, essa tecnologia que sustenta a civilização inteira, nasceu em boa parte para resolver briga de divisa. Se você acha cartório chato, saiba que ele é literalmente um dos motivos de existir o alfabeto.


Geometria? Também nasceu medindo terra


A palavra geometria vem do grego: geo (terra) mais metria (medida). Traduzindo sem poesia: "medir a terra".


No Egito antigo, todo ano o rio Nilo enchia, cobria tudo e, ao baixar, apagava as divisas das plantações. Aí entravam os harpedonaptae, os "esticadores de corda", os primeiros agrimensores profissionais da história. Com uma corda de doze nós eles formavam um triângulo, cravavam o ângulo reto e devolviam a cada um a sua exata fatia de terra. Tudo para o Faraó cobrar o imposto certinho, claro. Heródoto, o fofoqueiro-mor da Antiguidade, dizia que a geometria surgiu justamente dessa necessidade de remedir o chão depois da cheia.


Então, quando seu sobrinho reclamar da aula de trigonometria, avise a ele que esse negócio foi inventado para saber de quem era o pedaço de terra. Pitágoras é subproduto de disputa de lote.


Onde há terra, há lei


Não por acaso, uma das leis mais antigas que se conhece, o Código de Hammurabi (por volta de 1750 a.C.), já tinha artigo sobre medição de terra e disputa de propriedade. Lei e terra nasceram de mãos dadas. Onde alguém fincou uma estaca e disse "daqui pra lá é meu", outro veio com o "quem disse?", e pronto: precisou de regra, de juiz, de Estado. Boa parte da estrutura de poder que a gente conhece começou com uma pessoa querendo garantir um pedaço de chão.


Nem todo povo quis ser "dono". Alguns quiseram pertencer


Aqui vale uma pausa no orgulho ocidental do "isto é meu". Muitos povos originários tiveram, e ainda têm, uma relação com a terra que não cabe numa matrícula. Não é que "a terra é minha", é que "eu sou daqui", logo, terra como pertencimento ao invés de posse.


E não é papo romântico. Os povos indígenas são menos de 5% da população mundial, mas cuidam ou detêm a posse de cerca de 25% da superfície de terra do planeta. Costuma-se dizer que em seus territórios está guardada 80% da biodiversidade que ainda resta.


Cientistas hoje discutem esse número exato (a revista Nature já pediu para aposentarem o "80%" cravado), mas até quem contesta a estatística concorda com o fato de que onde povo trata a terra como parte de si, a terra é melhor monitorada.


Duas civilizações, duas gramáticas: uma que possui a terra, outra que pertence a ela. A economia moderna escolheu a primeira. Mas talvez devesse ler as notas de rodapé da segunda.


Para a família, terra sempre foi o cofre que não pega fogo


Volte para a sua própria árvore genealógica. Em quase toda cultura, terra foi herança, foi dote, status, foi seguro de vida antes dele existir. Reinos caíram e moedas viraram pó, impérios foram engolidos pela inflação e pela história, o pedaço de chão, continuou lá, teimoso, mudando só o nome no papel.


Terra é o ativo que atravessa a bagunça. Guerra, plano econômico maluco, governo que vai e vem: quem tinha chão, atravessou (vide o Brasil). Não é à toa que "ter onde cair morto" virou, na boca do brasileiro, sinônimo de segurança máxima.


Corta para hoje: o velho ativo ainda é o maior de todos


Agora o grande final dos números, pegue seu café. No fim de 2024, todo o mercado imobiliário do mundo (residencial, comercial e rural somados) valia cerca de 393,3 trilhões de dólares. Isso é quase quatro vezes o PIB de todos os países juntos. É o maior estoque de riqueza do planeta, maior que todas as ações e todas as dívidas do mundo somadas.


Quer outro comparativo? Todo o ouro que a humanidade já arrancou da terra, do primeiro faraó ao último garimpo, equivale a uns 5% do valor dos imóveis (CINCO POR CENTO!). O ouro, metal dos deuses e dos piratas, é troco perto de terreno.


E tem um detalhe que o pessoal do urbanismo vai adorar: só a terra nua vale uns 47,9 trilhões e foi o pedaço que mais subiu em 2024, quase 8% num ano só. Terra, sem nada em cima, valorizando mais rápido que prédio, vai entender. Ou melhor: entenda, que é justamente o assunto desta casa.


O paradoxo (e a beleza) da terra vazia


Aqui está o humor. A gente chama de "terra vazia" exatamente aquilo que é a coisa mais cheia que existe. Cheia de história, de geometria, de lei, de herança, de futuro e de imposto. O lote pelado na esquina é o mesmo objeto que fez a humanidade inventar a escrita, a matemática e o Estado.


E ainda tem o golpe final: numa economia que fabrica de tudo, imprime dinheiro, clona voz e gera imagem com um clique, a terra é a única coisa que ninguém consegue produzir mais. A frase atribuída a Mark Twain resume bem: "compre terra, não estão fabricando mais". O ativo mais antigo é também o único genuinamente finito [... além de bitcoin], o que parece o mais abundante e sem graça, um espaço sem uso, é no fundo o mais escasso de todos.


Então, da próxima vez que passar por um terreno vazio, talvez valha trocar o "que meio de mato" por outra coisa. Aquilo é uma página em branco, linda e limpa. E, se a história serve de pista, foi numa página em branco dessas que a humanidade escreveu, faz uns cinco mil anos, a sua primeira palavra.


O resto, inclusive este blog, é só a gente continuando a esticar a corda.



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